DEPORTIVO
ESPAÑOL
Uma
comovente e fantástica história pelo futebol
perdido de Buenos Aires
por
Emerson Ortunho, do Jogos
Perdidos
Estive
no início de 2005 em Buenos Aires, considerada por
muitos a capital mundial do futebol, devido ao grande número
de clubes praticantes desse esporte. Lá, além
de ouvir muito tango e comer muito chorizo, fiz uma “tour”
para conhecer vários clubes e estádios. Passei
por quase todos os bairros, mas a aventura que vou relatar
se passou em Flores, bairro pobre ao sul de Buenos Aires.
Saí
logo cedo do hotel com um grande objetivo: conhecer o Estádio
España, do extinto Club Deportivo Español. Motivo:
além de ser um clube que eu tinha grande simpatia,
Espanha é o nome do estádio do meu time do coração,
o Jabaquara Atlético Clube.
Antes
da aventura em si, vamos para um pouco de história:
O Club Deportivo Español de Buenos Aires foi fundado
em 12/10/1956, e disputou por vários anos a primeira
divisão argentina. No entanto, o clube teve sua falência
decretada em 2003, junto com o tradicional Racing de Avellaneda.
Na
época houve uma mobilização nacional
para salvar as equipes, o Racing por ser um pouco mais estruturado,
conseguiu apresentar um plano de garantias e se livrou da
falência, já com o Deportivo Español não
houve acordo. A crise financeira era tão grande que
a falência foi realmente decretada e todos os seus bens
interditados e confiscados para penhora, inclusive o belíssimo
Estádio España, que permaneceu lacrado desde
então.
Em
3 de setembro de 2003, cerca de 600 sócios do antigo
Deportivo Español se reuniram e fundaram uma nova equipe:
o Club Social, Deportivo y Cultural Español de la República
Argentina. Como lá existe o famoso jeitinho argentino,
a nova equipe ocupou a vaga no campeonato da Primeira B (a
terceira divisão), pertencente à equipe extinta,
não precisando começar da quinta divisão.
Qualquer semelhança com um país que nós
conhecemos é mera coincidência.
Obviamente
o novo clube continuou sendo tratado na mídia como
Deportivo Espanõl e poucos na Argentina sabiam até
pouco tempo atrás que era uma nova equipe que estava
jogando. Principalmente porque os novos sócios conseguiram
na justiça o direito de usar o escudo e o uniforme
da antiga equipe. Essa é uma informação
interessante aos amantes de escudos, já que um juiz
entendeu que o escudo e a camisa não tinham valor comercial
e portanto podiam sair da lista de penhora, sendo assim liberado
para uso da nova equipe.
Só
agora em 2005, o novo Deportivo Español solicitou à
AFA (Associação de Futebol Argentino) e à
imprensa para ser chamado oficialmente de Social Español,
pois vários processos trabalhistas, tentavam vincular
a velha equipe com a nova.
Vamos
então à aventura: já em Flores, deparei-me
com um bairro muito pobre, com mendigos, carros desmanchados
por todo o canto, mas nada que impedisse meu objetivo. Depois
de andar um bom tempo a pé, cheguei num grande escampado,
totalmente deserto e de longe avistei o estádio España,
que fica na inabitada Avenida Santiago de Compostela. Chegando
próximo, já comecei a me deparar com uma situação
de abandono, mato alto, portões com correntes e faixas
indicando a interdição da Justiça Federal.

Visão Externa do Estádio
Foto: Emerson Ortunho
Fiquei
ali boquiaberto a admirar aquele monumento, que tem capacidade
para 35.000 pessoas abandonado. Fiz algumas fotos e comecei
a pensar em tentar entrar no estádio. Dei uma volta
completa e chequei todos os portões e todos estavam
cerrados.
Já estava pensando em ir embora quando vi que havia
um furo numa grade ao lado de dois campos de treino que ficam
fora do estádio. Apesar do mato alto não tive
dúvida, entrei e atravessei todo o campo até
chegar ao lado do estádio. Lá, a grade estava
furada também. Então pronto, uma etapa vencida.
Assim, eu já estava dentro dos portões mais
ainda fora do estádio em si.

Mato cercando os portões fechados
do Estádio
Foto: Emerson Ortunho
Comecei
a procurar outra brecha e fui me deparando com todas as rampas
que davam acesso as arquibancadas com tapumes. Nova frustração,
mas não desisti. Comecei então a tentar abrir
toda e qualquer porta que eu encontrava pela frente. Finalmente
encontrei uma porta aberta. Ao entrar me deparei com alguns
colchões velhos, talvez resquícios de um possível
alojamento de jogadores. Tava me sentindo quase num sítio
arqueológico futebolístico.
Enfim,
dentro desse novo acesso, encontrei uma rampa aberta. Subi
e adentrei as arquibancadas do colossal e agora fantasmagórico
estádio Espanha. Confesso, que a sensação
foi de êxtase. Não é brincadeira não,
eu estava dentro de um local interditado pela justiça.
Ninguém atualmente pode pisar lá dentro, mas
lá estava eu, fotografando num ato de peraltice infantil.
Tudo pela simples realização de conhecer o estádio.

Visão interna do Estádio
foto: Emerson Ortunho
O
estádio Nueva España, como passou a ser conhecido
desde 1996, após a realização de uma
grande reforma, está avaliado em 11 milhões
de pesos e já foi duas vezes a leilão. A maior
proposta feita até agora foi de uma rede de supermercados
que ofereceu 3,5 milhões, não aceita pela justiça.
Enquanto isso o tempo vai passando e um novo leilão
está marcado.
Finalmente
desfiz o caminho e sai do estádio com um sentimento
de dever cumprido, pois na minha próxima viagem para
a Argentina, ele pode não existir mais... Como saldo
negativo somente alguns arranhões nas pernas...
É
gente, não é a toa que nos chamam de doentes,
malucos e fanáticos por futebol.
Até
a próxima!

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