CLUBE DOS DOENTES
O
TRISTE FIM DO VELO CLUBE DE RIO CLARO
por
Fernando Martinez, do Jogos
Perdidos
Hoje
venho aqui para registrar um texto um tanto quanto triste
e decepcionante. É um texto sobre o pedido de licenciamento
de um dos clubes preferidos da casa e dos mais tradicionais
do nosso interior, a Associação Esportiva Velo
Clube Rio Clarense.

Escudo da Associação Esportiva Velo Clube Rioclarense,
fundada em 1910, certamente um dos times mais tradicionais
do nosso interior.
Com
muito pesar, a gente recebeu a notícia que o Velo não
disputaria a Segunda Divisão deste ano, mas em seu
lugar entraria outro time, como um dos vários "Limitada"
que temos hoje em dia, mas no último momento eles teriam
que assumir uma dívida antiga de parceira do Velo e
desistiram do campeonato. Um absurdo! Como pode um time desses,
com tanta torcida, história e tradição
acabar desse jeito? E aonde estão pessoas para auxiliar
o clube? Empresários sérios de Rio Claro ou
coisas assim?

Time do Velo Clube, posado com EXCLUSIVIDADE em jogo acontecido
no dia 30 de julho de 2005, contra o Força, em Caieiras.
Foto: Fernando Martinez (Arquivo JOGOS PERDIDOS).
Mas
não vamos falar mais nada, e só reproduzir aqui
o texto do Adriano Antônio dos Santos, torcedor do Velo
Clube que está de luto com a atual situação
do clube:
"Um
gigante agoniza em praça pública"
"É
triste quando você vê seu time perder um jogo,
perder um título. É triste quando o time do
seu coração é eliminado de um campeonato.
É triste ver o atacante do seu time chutar o pênalti
na trave. É triste... Mas isso são coisas do
futebol jogado. Triste, muito triste, é ver seu time
do coração morrer por incompetência de
aventureiros, que usaram seu clube de coração
em benefício próprio, até que ele chegasse
no estado lamentável de falência.
Foi
com muita tristeza que hoje recebi a notícia da quase
falência de um gigante do futebol paulista: a Associação
Esportiva Velo Clube Rio Clarense. Quando tive a confirmação
meus olhos marejaram, e um filme começou a passar em
minha mente. Lembro que quando criança meu pai passou
a me levar, nas tardes quentes de domingo, ao Benitão
para ver os jogos do Velo. Foi amor à primeira vista.
Estádio lotado, todo desenhado com milhares de pessoas
vestidas em vermelho e verde, gritando, apoiando e tremulando
bandeiras enormes. E depois dos jogos, essas milhares de pessoas,
felizes, saíam pelas ruas da cidade, batucando seus
instrumentos de percussão, alegres com mais uma vitória
do Velo.
Ó
tempo que não volta mais. Ainda tenho na minha retina,
como se fosse fotografia, o jogo entre Velo e São Caetano
em 1991, que terminou em 1 a 1 e deu o acesso aos dois clubes.
Como foi bom torcer junto e fazer amizades com os torcedores
do Azulão no ABC.
Ó
tempo que não volta mais. Nas vitórias e nas
derrotas, estávamos lá, eu e meu pai, gritando
e brigando por esse time que amamos tanto.
Ó
tempo que não volta mais. Que vontade de ser criança
novamente e ouvir meu pai dizendo - "filho, o Velo tem
uma torcida fantástica. Sabe, no final da década
de 70, o Velo foi eleito pela Placar como a quinta maior torcida
do estado, perdendo apenas para os 4 grandes."
Ó
tempo que não volta mais. Que vontade de ouvir os mais
velhos contando sobre o dérbi de 1983 - "aqui
no Benitão, ganhamos de 11 a 2 do Rio Claro."
Ó
tempo que não volta mais. Saudades de ouvir as histórias
das caravanas velistas que andaram por todo esse interior
paulista, acompanhando o time, fosse onde fosse. Saudades
de ouvir as histórias de quando o rubro-verde disputou
a Primeira Divisão Paulista.
Ó
tempo que não volta mais. O mutirão para a construção
do Benitão em 1973.
Ó
tempo que não volta mais. A inauguração
do Benitão num amistoso contra o Palmeiras, e com o
primeiro gol do estádio sendo marcado por um velista:
Albertinho Traina. O Velo perdeu o jogo, mas o primeiro gol
do estádio velista, foi de um velista.
Ó
tempo que não volta mais. Agora vejo as fotos do jogo
que levou o Velo para a Primeira Divisão; a via Anhangüera
pintada de vermelho e verde para ver Velo e Paulista em Campinas.
E o que sobrou de tudo isso? O que ficou de presente para
as futuras gerações?
Somente
histórias sobre pessoas que passaram pela diretoria
e pelo conselho do clube, que nunca amaram o Velo, apenas
o usaram em benefício próprio. Raposas famintas
a fim de destruir a paixão de uma torcida rubro-verde
fiel. Raposas que se aproveitaram de um clube tradicional
de São Paulo. Raposas que colaboraram para que fosse
anunciado, nesta quarta-feira, 01 de fevereiro de 2006, em
dia nublado e carregado de nuvens, um dia carrancudo, medonho
e triste: o fim da Associação Esportiva Velo
Clube Rio Clarense.
As
raposas ganharam dinheiro em cima do Velo e jogaram as dívidas
para que o mesmo pagasse, fazendo com que esse clube amado
perdesse o crédito junto a investidores e potenciais
patrocinadores. Ninguém quer mais investir no Velo,
e tudo por causa dessas raposas famintas, sedentas por se
dar bem a qualquer custo.
Hoje,
o gigante Velo Clube, fundado em 1910, agoniza em praça
pública. A quatro anos de completar 100 anos de vida,
o gigante está caído, definhando e quase morto.
Talvez, apenas um milagre para salvar um clube com mais de
2 milhões de reais em dívidas.
Não
ligo para o que a torcida do Rio Claro vai dizer. Claro, eles
vão tirar sarro de nós, velistas, mas isso não
importa, isso não dói. O que dói e machuca
é ver o gigante time do seu coração morrer
por causa de raposas famintas.
O
que pensa agora o senhor Benito Agnello Castellano? Com certeza
chora como uma criança, num plano astral superior ao
nosso, onde com certeza não existem raposas aproveitadoras.
Ele e tantos outros que fizeram tanto bem ao Velo, porque
realmente amavam o Velo. O que meu avô está pensando
agora? Ele que já se foi há algum tempo, com
certeza chora, pois também amava o Velo. E é
por causa dele que meu pai se tornou velista, e é por
causa do meu pai que eu me tornei velista, e é por
isso que hoje eu choro, quando toda a imprensa noticia que
o gigante Velo Clube agoniza em praça pública,
sem que ninguém apareça para salvá-lo.
Triste fim para um clube amado e que tem uma torcida apaixonada.
Queria
voltar a ser criança, para poder ver os jogos e as
vitórias do gigante rubro-verde.
Ó
tempo que não volta mais..."
Adriano
Antônio dos Santos, 24 anos, velista de luto. 01 de
fevereiro de 2006.

Time do Velo Clube que conquistou o acesso à Primeira
Divisão Paulista em 1978. Foto: Arquivo Pessoal de
Adriano Antônio dos Santos.
Nem
precisa falar mais nada, né? Só que nos solidarizamos
com a tristeza dos torcedores do Velo e torcemos muito para
que alguém salve esse gigante!

Fernando
Martinez - 29 anos, corintiano desde 1910. Possui 362 times
na lista. Apaixonado pela Rua Javari, Comendador Souza e
Canindé. Tem trunfos como a Seleção
Chinesa, Independiente Medellín, CRAC de Catalão,
Carlos Renaux e Lami de Porto Alegre.
*Todas as opiniões e informações contidas
nas colunas são de inteira responsablidade de seus
autores*
Veja
o site JOGOS PERDIDOS
Índice
"Contos do Futebol".
|