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1980 - ESTAÇÃO PRIMEIRA DE FLAMENGO

por Sandro Varela

Olá amigos do Distintivos.com.br. Antes de qualquer coisa peço licença às torcidas flamenguista e mangueirense em relação ao título desta coluna. O trocadilho é uma forma de homenagem a dois ícones do Rio de Janeiro, tanto a escola de samba, de Cartola, D. Zica, D. Neuma e tantas feras e o rubro-negro, que neste ano abriu uma de suas mais vitoriosas páginas em seus quase 110 anos.

O ano de 1980 marcou além do inicio de uma nova década, o inicio das discussões que levariam as eleições quase gerais dois anos depois. Marcou o primeiro grande boicote numa Olimpíada, que foi disputada em Moscou. A recusa em participar dos Jogos foi promovida pelas nações alinhadas com os Estados Unidos na “Guerra Fria”, uma vez que a então União Soviética havia invadido o Afeganistão no ano anterior. Também tivemos as primeiras vitórias de um novo astro brasileiro na Fórmula 1, Nelson Piquet. A música perdeu um de seus maiores gênios, John Lennon e o Brasil recebeu pela primeira vez em sua historia a visita de um Papa, João Paulo II.

Dentro de campo, a CBD saía de campo e dava lugar a recém-criada CBF. Outro ponto importante desta competição foi que finalmente, a famigerada e nefasta política do “Onde a Arena vai mal, um clube no Nacional” chegava ao fim, com a criação da primeira divisão, batizada de Taça de Ouro, e da segunda divisão, ou Taça de Prata como ficaram conhecidas.

O torneio principal, que começou em 23 de janeiro, foi disputado por 40 equipes divididas em quatro grupos de dez e as sete melhores classificadas seguiam adiante. A elas se somavam as quatro melhores classificadas da Taça de Prata e apos serem reorganizadas em oito grupos de quatro, disputavam as duas vagas de cada chave, onde formariam quatro chaves de quatro times. Os vencedores de cada um destes grupos disputariam as semi finais e a final em dois jogos. Além disso, a Taça de Prata seguia em frente e daria ao campeão e o vice o direito de jogar a Taça de Ouro de 1981.

O grupo A do torneio principal teve como participantes Corinthians, Botafogo do Rio, Colorado do Paraná, Remo, Cruzeiro, Joinville, Bahia, Operário de Campo Grande, CRB e Portuguesa. Operário, CRB e a Portuguesa deram adeus ao final desta fase.

Na chave B, Atlético-MG, Fluminense, Palmeiras, Ceará, Guarani de Campinas, Vitória da Bahia, Desportiva Capixaba, América de Natal, Vila Nova de Goiás e Flamengo do Piauí brigaram pelas vagas e os representantes potiguar, goiano e piauiense foram eliminados.

No grupo C, Santos, Flamengo, Botafogo da Paraíba, Internacional de Porto Alegre, Ferroviário, Náutico, Itabaiana, Mixto e São Paulo de Rio Grande suaram a camisa atrás das sete vagas. Itabaiana, Mixto e o clube de Rio Grande acabaram fora da próxima fase.

Na chave D, Coritiba, Grêmio, São Paulo, Vasco, Santa Cruz, Atlético Goianinese, América do Rio, Gama, Nacional e Maranhão jogaram e ao fim desta fase, o clube de Brasília, o time manauara e a equipe maranhaense deram adeus ao torneio.

Às 28 equipes classificadas, juntaram-se América de São José do Rio Preto, Bangu, Americano e Sport Recife, vindas da Taça de Prata e que completariam as 32 equipes que continuariam brigando pelo título nacional.

Segunda fase

Os 32 times foram então divididos em oito grupos de quatro. A chave E teve a classificação de Vasco e Corinthians. Porém, um jogo em particular deste grupo deve ser destacado. No dia 4 de maio, o Maracanã recebeu o confronto entre as duas equipes e para a torcida vascaína, este jogo ganhava uma importância maior, já que após uma passagem mal-sucedida no Barcelona, o maior ídolo da história cruz-maltina, Roberto Dinamite voltava a jogar pela equipe. A reestréia do ídolo não poderia ser mais marcante, uma vez que ele marcou os cinco gols vascaínos. Descontaram para o time paulista, Caçapava e Sócrates.

O grupo F, teve como classificados São Paulo e Botafogo do Rio. A chave G teve como promovidos Internacional de Porto Alegre e Atlético Mineiro. No grupo H, Cruzeiro e Fluminense ficaram com as vagas.

A chave I teve uma situação inusitada. O Santos ficou com a primeira vaga e América do Rio e Guarani de Campinas empataram em todos os critérios de desempate. Um novo jogo foi feito em Campinas e somente nesta partida o Bugre campineiro ficou com a vaga. O grupo J viu Flamengo e Palmeiras seguindo adiante. A chave K teve como classificados Coritiba e Desportiva Capixaba e o grupo L viu Grêmio e Ponte Preta passarem de fase.

Decisão da Taça de Prata

Nesse meio tempo, Londrina e CSA sobreviveram a maratona de jogos da segunda divisão inaugurada no Brasil e o clube do Paraná ficou com o título depois de empatar o jogo de ida em Maceió por 1 x 1 e vencer no Estádio do Café por 4 x 0 o jogo da volta. Os dois times conseguiram acesso para a Taça de Ouro de 1981.

Terceira fase

Agora, os 16 times foram divididos em quatro grupos de quatro e a sorte seria decidida dentro das chaves em um único turno. O campeão levava a vaga para a semifinal. O Atlético Mineiro faturou a vaga do grupo M com a ajuda do saldo de gols, um de diferença sobre o Vasco. Na chave N, mesmo com a sua atenção voltada para a Taça Libertadores, O Internacional ganhou o direito de continuar sonhando com o tetra. O Flamengo despachou a concorrência no grupo O e na chave P, o Coritiba ficou com a vaga.

Semifinal

Atlético Mineiro x Internacional de um lado, Flamengo x Coritiba do outro buscavam a honra de fazer a primeira final de um Campeonato Brasileiro na década de 80. No confronto entre mineiros e gaúchos, o time de Minas Gerais levou a melhor. Na partida de ida no Mineirão, um empate por 1 x 1 (Reinaldo para o Galo, Cléo para o Inter) deixou a dúvida de como se definiria a decisão desta vaga, porém a dedicação gaúcha à Taça Libertadores da América fez com que os mineiros fizessem a festa no Beira-Rio, aplicando uma goleada de 3 x 0 (Reinaldo 2 e Éder). Já a segunda partida que definiria o outro finalista viu um massacre flamenguista. Tanto no jogo de ida, no Maracanã, quanto no Maracanã, só deu “Mengo”. Se em Rio, os cariocas fizeram a festa com um 2 x 0 (dois gols de Zico), em Curitiba, o time da Gávea soube segurar a pressão exercida pelo time local e ainda arrancou uma bela vitória por 4 x 3 (Nunes (2), Carlos Alberto, Anselmo para o Flamengo, enquanto que para o “Coxa” Vílson Tadei, Aladim, Luís Freire marcaram os gols).

Final

Flamengo e Atlético Mineiro chegavam à decisão, que novamente seria realizada em dois jogos. No primeiro confronto, realizado em Belo Horizonte, o equilíbrio prevaleceu e o Galo conseguiu um gol com o “Rei” Reinaldo, que daria a vantagem do empate no jogo final no Maracanã. Porém, os 154.355 que estavam presentes ao estádio e os milhões de torcedores ligados na televisão não viram um jogo qualquer e sim uma das mais eletrizantes finais de Campeonato Brasileiro da história.

A partida começou com uma dose elevada de tensão, muito nervosismo e catimba, já que o placar empatado pertencia ao time de Minas, mas aos seis minutos de jogo, o primeiro zero saiu do placar, Zico recebeu um passe errado e tocou uma bola açucarada para Nunes o “João Danado” fazer 1 x 0.

Porém a alegria rubro-negra durou pouco. Logo que José de Assis Aragão autorizou o reinicio de jogo, o zagueiro do Flamengo Manguito falhou e a bola sobrou limpa para Reinaldo empatar a partida. O gol foi o combustível que a equipe atleticana precisava para dominar a partida. Entretanto, o Atlético Mineiro perdeu várias chances de gol e como já dizia o antigo filósofo, “quem não faz, toma”. Aos 45 minutos do 1º tempo, Zico recebeu a bola dentro da área e fuzilou o canto esquerdo de João Leite.

A etapa final começou com o Flamengo dominado as ações, mas desperdiçando muitas chances de gol. Enquanto isso, o Atlético conseguia encaixar alguns contra-ataques com Palhinha e Reinaldo. O jogo estava tão equilibrado que qualquer palpite para o vencedor era válido. Pouco antes dos 15 minutos do 2º tempo, Reinaldo sentiu uma contusão na perna e não tinha mais condições de jogo, detonando um coro da torcida flamenguista “Bichado, Bichado!”. O atacante não podia ser substituído, uma vez que o técnico Procópio Cardoso tinha feito as duas alterações permitidas (O número atual de três substituições passou a ser válido em 1994).

Porém, o “Bichado” atacante mineiro calou o Maracanã. Aos 20 do 2º tempo, o “Rei” achou forças e empatou a partida. Com este placar o Galo faturaria o seu segundo titulo nacional, contudo, ainda restavam 25 minutos de jogo e muita coisa ainda poderia acontecer. Poucos minutos mais tarde, o mesmo Reinaldo deixava de ser herói para tornar-se vilão.

O atacante mineiro reclamou de um impedimento mal marcado e como recompensa recebeu o cartão vermelho. O time mineiro chiou bastante da decisão do árbitro paulista, que depois daquele dia recebeu o singelo apelido de "José de Assis Flamengão".

O ato final desta decisão foi protagonizado pelo ataque rubro-negro, que partiu para o tudo ou nada, ou marcava o gol que dava o título ou amargaria uma vexatória derrota em casa. Nunes não quis saber e estampou um sorriso no rosto de todos os flamenguistas ao marcar o terceiro gol do Flamengo. Para dar tons mais dramáticos a este jogo, O Atlético que já tinha dez homens em campo perde mais dois com as expulsões de Chicão e Palhinha.

O caminho estava aberto para o apito final de Aragão e para as futuras conquistas do ano seguinte, quando o time carioca faturou a Libertadores depois de uma batalha épica contra o Colo-Colo e o Mundial Interclubes, quando não tomou conhecimento do Liverpool. O inicio dos anos 80 ainda veria pelo menos mais duas conquistas, em 82 e 83 e que serãon tratadas oportunamente por nossa coluna.

Na próxima semana falaremos do Grêmio, que pela primeira vez conquistou um título nacional e diferentemente de sue maior rival, o Internacional, fez sua festa fora de casa.

Um abraço.

Confira a ficha técnica da segunda partida da final de 1980

Data e Local: 01/06/80 Maracanã (Rio)

FLAMENGO 3 X 2 ATLÉTICO MINEIRO

Juiz: José de Assis Aragão (SP); Renda: Cr$ 19.726.210,00; Público: 154.355; Gols: Nunes 7, Reinaldo 8 e Zico 44 do 1º; Reinaldo 21 e Nunes 37 do 2º; Expulsão: Reinaldo, Chicão e Palhinha

FLAMENGO: Raul, Toninho, Manguito, Marinho e Júnior; Andrade, Carpegiani (Adílio) e Zico; Tita, Nunes e Júlio César (Carlos Alberto). Técnico: Cláudio Coutinho

ATLÉTICO MINEIRO: João Leite, Orlando (Silvestre). Osmar, Luisinho (Geraldo) e Jorge Valença; Chicão, Toninho Cerezo e Palhinha; Pedrinho, Reinaldo e Éder. Técnico: Procópio Cardoso

Confira a classificação final do Brasileiro de 1980

1 Flamengo

2 Atlético Mineiro

3 Internacional

4 Coritiba

5 Corinthians

6 Grêmio

7 Santos

8 Vasco

9 São Paulo

10 Cruzeiro

11 Fluminense

12 Ponte Preta

13 Palmeiras

14 Botafogo

15 Desportiva Capixaba

16 Guarani de Campinas

17 Santa Cruz

18 Remo

19 Colorado

20 Botafogo da Paraíba

21 Joinville

22 Ceará

23 Atlético Goianiense

24 América do Rio

25 Vitória da Bahia

26 Bahia

27 Náutico

28 Ferroviário

29 Sport Recife

30 Americano

31 Bangu

32 América de São José do Rio Preto

33 Operário de Várzea Grande

34 América de Natal

35 Itabaiana

36 Vila Nova de Goiás

37 Gama

38 CRB

39 Mixto

40 Portuguesa

41 São Paulo - RS

42 Nacional do Amazonas

43 Flamengo do Piauí

44 Maranhão

Sandro Varela é redator do site Autoracing e torcedor do Palmeiras.

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